MPB – Tudo sobre a Música Popular Brasileira

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MPB

 

O termo MPB é, hoje em dia, um pouco dúbio. Como o termo música popular brasileira pode ser aplicado a qualquer gênero e subgênero que exista dentro da música nacional, é muitas vezes utilizado assim.

Não raramente a expressão inclui rock, samba, pop, pop rock e outros. No entanto, esse termo surgiu num período específico para designar um tipo de música que configurava um novo gênero musical.

Esse novo gênero foi tão popular e importante que acabou por influenciar toda a música brasileira que viria nas décadas seguintes. Vamos ver um pouco sobre a MPB?

A história da música popular brasileira

A música popular brasileira começou, de vez, nos anos 60. No entanto, é interessante traçar brevemente o caminho da origem da MPB, desde muito antes da Bossa Nova.

Uma mistura de estilos

A história do Brasil é suficiente para explicar a diversidade da música brasileira, tanto em tempos antigos quanto atuais. Com uma população diversa, composta por mulatos e negros de origem africana, índios e brancos europeus, o Brasil via todo tipo de música, populares e eruditas.

Lundu e Modinhas

Lundu
Em ilustração de Johann Moritz Rugendas, pessoas dançam o lundu

No século XVIII o Brasil via crescer o lundu, dança africana do Brasil, originada na Angola.

Aos poucos o lundu foi sendo incorporado pela população branca, modificado, tornando-se um novo estilo de música. À mesma época, haviam as modinhas – lamentos melancólicos portugueses, mais eruditos.

Os dois estilos foram fundamentais para a música popular brasileira como conhecemos. Um exemplo é como Villa-Lobos utilizou os dois formatos de música em suas canções. Villa-Lobos foi grande influência para Tom Jobim que, por sua vez, influenciou muito a MPB.

O choro e o samba

No século XIX surge o choro, a partir dos dois estilos já citados e outras formas de música europeia. Você pode reparar como canções de músicos da época, como Chiquinha Gonzaga, se assemelham à MPB em vários elementos.

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Mais adiante, todos esses elementos misturados, junto com a música das rodas de capoeira, batuques africanos e músicas de orixás, surgiria o samba nos morros cariocas.

Muitos outros estilos regionais surgiriam depois disso, como o baião de Luiz Gonzaga. Mas para a MPB, no entanto, o estilo mais importante que surgiu após o samba foi a Bossa Nova.

Bossa Nova, a mãe da MPB

A Bossa Nova tem status mítico dentro da música brasileira. Embora seja considerada até hoje um estilo conscientemente inventado, a Bossa Nova tem uma origem mais fluente do que aparenta.

nara leão bossa nova
Nara Leão, a anfitriã dos encontros criadores da Bossa Nova

Tudo começou com os famosos encontros na zona sul do Rio de Janeiro, onde morava Nara Leão, nos anos 50. Esses encontros foram ficando cada vez mais musicais, com foco em ouvir e tocar música. O centro era o samba. Dentro desses grupos estavam grandes nomes, como João Gilberto e Roberto Menescal.

Características

A Bossa Nova é conhecida pela influência do jazz estadunidense, principalmente o cool jazz (Miles Davis, Chet Baker). Porém, houve também muita influência da música erudita, em especial de impressionistas como Debussy e Ravel, cuja música era mais sutil e minimalista.

Essas influências tornaram o samba da zona sul carioca um estilo mais suave de música, com o cantar baixinho, típico de Nara Leão, tomando conta. Enquanto o samba do morro baseava-se em grandes vozes, muito projetadas e impostadas, esse samba moderno, como chamavam, tinha vocais atenuados.

tom jobim e vinicius de moraes
A famosa dupla, Tom Jobim e Vinicius de Moraes

O termo Bossa Nova, aliás, se refere a isso – uma “pegada” nova ao se fazer o samba.

Logo a famosa dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes começava a compor o que seriam

as músicas mais conhecidas do estilo – e do país. João Gilberto, ao executá-las com Elizete Cardoso em Canção do Amor Demais, considerado o primeiro disco oficial de Bossa Nova, lançaria o novo gênero ao estrelato – e a dupla de compositores também.

Canções como Chega de Saudade e Garota de Ipanema se tornaram hinos brasileiros, inclusive para os estrangeiros. Stan Getz, Ella Fitzgerald e outros americanos consagraram mundialmente a Bossa Nova como um grande estilo de música ao gravar suas músicas.

A divisão dentro da Bossa Nova

A Bossa Nova tinha letras tranquilas, que falavam de amor ou temas leves. Cantava-se baixinho, dando à voz importância igual à do acompanhamento. Seus acordes, com influência do jazz, traziam dissonâncias e sofisticação ao samba.

O movimento da União Nacional dos Estudantes (UNE), o Centro de Cultura Popular Brasileira, não estava feliz. De cunho nacionalista, esse grupo criticava a influência americana e propunha um retorno às origens do samba, um retorno ao morro. Com vários artistas aderindo a essa ideia, iniciou-se a segunda geração da Bossa Nova, com artistas como Edu Lobo, Francis Hime e Vinicius de Morares. Foi daí que o grande disco Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius, foi feito.

Essa divisão era a porta de entrada para a MPB.

A MPB e a diversidade da música brasileira

Com a divisão de visões da Bossa Nova, alguns artistas bem jovens tomaram a frente da música, sem tomar lados. Optaram por juntar as duas vertentes opostas numa nova música brasileira.

Era ainda chamada de MPM, Música Popular Moderna, e tem seu início com a apresentação de Elis Regina de Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, vencedora do primeiros Festival de Música Popular Brasileira.

A MPB, termo fixado um tempo depois, tinha um caráter antropofágico. Quando

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Gilberto Gil canta Domingo no Parque com Os Mutantes

nacionalistas criticavam a Jovem Guarda, o rock e a guitarra elétrica, Caetano Veloso e Gilberto Gil ambos se juntaram a grupos de rock, entre eles Os Mutantes, para o Festival

de Música. Além disso, suas canções tinham um caráter social, diferente da Bossa Nova.

Em meio ao início do regime militar, a MPB virou um símbolo de resistência para os jovens universitários. Era, por isso, chamada de música universitária. Grandes canções de teor de resistência, com poesia criptografada e bela, contornando censura, consagraram a MPB como principal gênero brasileiro de música. Foi o caso de Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, vencedora do Festival.

O auge disso foi o Tropicalismo, com o famoso disco Panis et Circensis, o maior marco de crítica e resistência à ditadura.

Após os festivais de música brasileira

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Tim Maia traz os elementos da música black americana para a MPB

A MPB se manteve forte por décadas. Seu caráter antropofágico foi o que mais perdurou, até hoje. Nos anos 70 ela abraçou elementos de soul, funk e rock, com Tim Maia, e com o samba-rock, que viu um revival na década passada. Esses elementos, e também de pop,

podem ser vistos também na música de Jorge Ben Jor.

Isso continuou para a MPB nos anos 80. O rock nacional tinha grande caráter MPB, e até a Bossa Nova o reconhecia – João Gilberto, por exemplo, gravou sua versão da música Me Chama, de Lobão.

Mais tarde até o reggae e o rap entrariam para a MPB, com Gilberto Gil colaborando com a banda The Wailers, de Bob Marley, e sua música colaborativa com Caetano Veloso, Haiti, um rap de crítica social – especialmente ao massacre do Carandiru.

 

Compositores e cantores de MPB

A MPB, de ontem e de hoje, está repleta de nomes e músicas incríveis. Separamos aqui alguns dos maiores compositores e intérpretes do gênero.

Elis Regina

elis reginaConhecida como a maior voz feminina no Brasil até hoje, Elis foi uma cantora de forte personalidade e presença de palco. Surgiu nos festivais de música da década de 60 interpretando grandes canções. Extremamente teatral, Elis era capaz de demonstrar diversas emoções em suas performances, como melancolia e felicidade, raiva e alegria.

Aventurou-se por variados gêneros da música popular brasileira, como bossa nova, samba, jazz e também rock. Suas interpretações mais famosas são Madalena, Como nossos pais, O bêbado e o equilibrista e Querelas do Brasil. Faleceu aos trinta e seis anos de idade por overdose de cocaína e álcool, deixando uma vasta obra para a MPB.

Para Elis Regina no Spotify, clique aqui.

Chico Buarque

chico buarqueFilho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e Maria Amélia Cesário Alvim, Chico Buarque começou sua carreira aos dezoito anos como contista. Em 1966 se destacou como cantor ao lançar seu primeiro disco, Chico Buarque de Hollanda. Venceu o Festival de Música Popular Brasileira com o sucesso A Banda, interpretada por Nara Leão.

Durante os anos 60, Chico fez duras críticas ao regime militar no Brasil, tanto em suas músicas quanto em suas declarações. Sofrendo com a forte censura, foi para a Itália em 1969, em exílio. Chico Buarque também se notabilizou por escrever com eu lírico feminino em várias de suas canções. Folhetim, Com açúcar, com afeto, Olhos nos Olhos e Teresinha são alguns exemplos.

Atualmente, dedica-se fortemente ao ativismo político, em defesa ao Partido dos Trabalhadores e na erradicação da desigualdade social no Brasil. Também se dedica a escrever romances, como Budapeste e Leite Derramado.

Para ouvir Chico Buarque no Spotify, clique aqui.

Caetano Veloso

caetano velosoCom mais de quarenta anos de carreira, Caetano Veloso é o artista mais influente do país, com uma obra versátil, inovadora e original. Nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, e cresceu em Salvador, onde ouvia Bossa Nova desde cedo.

Foi um dos principais criadores, junto de seu amigo de longa data Gilberto Gil, do movimento Tropicália. Caetano sempre se renovou, usando elementos da música do momento, de Prince até rock indie. Mas também foi por outros caminhos, como sua fase latina de Fina Estampa.

É, sem dúvida, um dos maiores compositores da MPB. Reconhecido internacionalmente, já participou até do filme Fale com Ela, do premiado cineasta Almodóvar.

Para Caetano Veloso no Spotify, clique aqui.

Gilberto Gil

gilberto gilMundialmente reconhecido, Gil é um dos artistas mais influentes do Brasil. Ativista político, ambientalista, multi-instrumentista, compositor e intelectual, Gil esteve ao lado de Caetano Veloso, com o Tropicalismo. O movimento tropicalista influenciou a música, poesia, teatro e também o cinema da época e até as gerações atuais.

Devido à pressão política do regime militar, foi exilado em Londres, junto com Caetano.

Começou sua carreira musical aos dezoito anos de idade, quando formou o grupo Os Desafinados, um conjunto instrumental, onde tocava acordeom e vibrafone. Apresentavam-se em festas, escolas e pequenos clubes de Salvador. O som desenvolvido por Gil se faz presente nos mais diversos álbuns da música popular brasileira, sendo este influente e universal.

Gil é muito conhecido por sua abertura aos estilos regionais, como forró e baião, e internacionais, como o reggae.

Para ouvir Gilberto Gil no Spotify, clique aqui.

Djavan

djavanO alagoano Djavan, muito conhecido por hits como Flor de Lis, Se, e Eu te devoro, demorou um pouco mais a fazer sucesso dentro da MPB – apenas nos anos 80.

Começando como intérprete de grandes canções de MPB para novelas da Globo, Djavan enfim consegue gravar seus discos originais, chamando a atenção de público, crítica e colegas. Chico Buarque e Caetano Veloso rapidamente fazem parcerias, e Djavan entra para o time dos grandes da MPB.

Gravou canções como A Rosa, de Chico Buarque, compôs com este Tanta Saudade, e ainda teve homenagem retribuída de Caetano. Ao gravar a música Sina, Caetano troca o verso “caetanear” por “djavanear”.

Para ouvir Djavan no Spotify, clique aqui.

Melhores músicas de MPB

Selecionamos as melhores músicas da MPB em forma de playlist. É só dar play e curtir o melhor da música brasileira!

Beatriz – Edu Lobo e Chico Buarque, com Milton Nascimento

Flor de Lis – Djavan

Esotérico – Gilberto Gil

O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco, com Elis Regina

Panis et Circenses – Caetano Veloso e Gilberto Gil, com Os Mutantes

Ela Partiu – Tim Maia

Você é Linda – Caetano Veloso

Construção – Chico Buarque

Pérola Negra – Luiz Melodia

Olhos nos Olhos – Chico Buarque, com Maria Bethânia

Baby – Caetano Veloso, com Gal Costa

O que será (À Flor da Pele) – Chico Buarque com Milton Nascimento

Beleza Pura – Caetano Veloso

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